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Da periferia de São Paulo para o mundo: Rebecca Alethéia democratiza o Afroturismo entre mulheres

Jovem negra é exemplo de superação para mulheres. Saiu da pobreza, visitou 35 países e hoje sustenta a família no Brasil com o Bitonga Travel
PorRedação
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Rebecca Alethéia é uma mulher preta, de 37 anos, enfermeira e produtora de conteúdo que saiu da periferia de São Paulo, em Santo André, para empreender na estrada pelo mundo. O desejo de conhecer cada cantinho do planeta e de sair da realidade de pobreza levou Alethéia a inovar com o turismo afro. Ela iniciou sua jornada em 2017 com o Bitonga Travel, projeto de afroturismo imersivo que democratiza viagens e vivências de mulheres negras dentro e fora do Brasil. Hoje, além de sustentar sua família, Alethéia já visitou 35 países e virou exemplo de superação para milhares de mulheres.

Autora do livro EscreVIVER – Cartas de uma viajante negra ao redor do mundo, Alethéia escreve e-books e produz conteúdo de viagem para o Instagram, Youtube e Podcast, colecionando milhares de seguidores, curtidas e comentários. “De onde eu vim, aprendi que nada do que faço é só sobre mim. Minhas ações são voltadas para o coletivo. Sou muito realizada e quero dar voz para outras mulheres negras”, explica.

A partir do network cultivado nos segmentos do turismo e do empreendedorismo criativo, Alethéia passou a acompanhar mais de perto e a gerenciar o impacto do seu trabalho voltado para o gênero: “Quando coloquei na ponta do lápis minha receita e o lucro, percebi que estava empreendendo de maneira inovadora, regada a muita ancestralidade e afeto”.

Até se formalizar como Microempreendedora Individual (MEI), a paulista enfrentou dificuldades financeiras. “Depois de pensar que conseguiria fazer tudo sozinha, aprendi que preciso de apoio e o Sebrae me ensinou a administrar o caixa e a gerir o meu negócio”, conta. A partir daí, ela se sentiu segura frente à condição do público. “Lidamos com sonhos de pessoas que muitas vezes não conseguem pagar. Por isso, busco mecanismos para viabilizar as viagens. Trabalhar com risco é um grande desafio, mas crescemos respeitando esses espaços.”

Transformando a sociedade

Promover uma mudança na sociedade é o que motiva Alethéia. “Hoje posso dizer que sou a maior promotora de viagens de mulheres pretas do mundo”. O Bitonga Travel permeia diversas faixas etárias, sendo a maioria das clientes do Amazonas, Pará, Nordeste e Sul. Elas viajam nacional e internacionalmente para pontos turísticos com história afro. “Mulheres afrodiaspóricas, afro-americanas e africanas fazem parte desse coletivo. O mais gratificante é despertar o senso de pertencimento nessas mulheres negras, que são muitas vezes marginalizadas”, celebra a empresária.

A primeira viagem internacional do projeto foi organizada em 70 dias, com mulheres periféricas que tinham a conta bancária bloqueada por não pagarem o FIES, mas conseguiram dinheiro para viajar. Segundo Alethéia, muitas delas viajaram 10h de barco antes de embarcar no avião. “Fizeram todo um movimento para pertencer a lugares e territórios. Cada minuto valeu a pena. Eu zerei a vida. Ouvir mulheres dizendo que o mundo é delas é a maior conquista da minha jornada”, reforça, emocionada.

Novos negócios

O Bitonga Travel também levou a empresária a buscar outras fontes de renda, como um hub de mídia social. “Pela referência no afroturismo, acabei criando um grupo nas redes. A partir dos pedidos de indicação de peças com temática africana, desenvolvi uma marca própria de roupas, além do brechó, que ajuda no acesso desse público ao universo da moda”, explica. A empresária também passou a oferecer mentorias e formações com dicas para monetizar em viagem, sempre se adaptando às novas estratégias de mercado.

A meta de Alethéia é proporcionar mais viagens para mais destinos a esse público, tendo como desafio o fato de uma negra empreender num segmento majoritariamente branco e masculino. “Quem disse que as mulheres pretas periféricas não tem poder aquisitivo? E, se não tiverem, fazemos esse movimento acontecer! Por isso, busco mais visibilidade, parceria, apoio e subsídios”, reforça. “No futuro, as empresas vão enxergar o Bitonga Travel como algo grandioso e todo nosso potencial para construir negócios”, conclui.

Empreendedorismo para mulheres pretas

O empreendedorismo tem um significado muito forte na vida de gerações da família de Alethéia. “É preciso um resgate ancestral para perceber que nas nossas raízes pretas têm muitas mulheres empreendedoras”, afirma com convicção. Foi então que ela percebeu que sua mãe, avó, tias e a bisavó se envolveram com o empreendedorismo.

“Mesmo na época da escravidão, quando não havia remuneração, foram as negras que começaram a trabalhar e a mover a cadeia produtiva. Não existe essa história de falar de empreendedorismo para mulheres pretas como uma nova forma de vida. A diferença é que agora temos recursos para inovar, com uma visão profissional de negócio, e que não se limita a pouca renda”, aconselha.

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